domingo, 17 de junho de 2012

Urinoterapia: Uma Prática Fisiológica?

URINOTERAPIA: UMA PRÁTICA FISIOLÓGICA?

A prática secular da urinoterapia ressurge entre a população moderna com o aparecimento de diversos livros, organizações e sites na Internet sobre o assunto. Mas do ponto de vista científico pouco se tem visto. Esse ensaio visa, de forma bem modesta, ser um início.

Ao se ingerir a própria urina não há como não se perguntar se não iria nos fazer mal algo que o próprio corpo já está se encarregando de eliminar? E as substâncias 'tóxicas', no caso, os 'produtos de excreção do nitrogênio', tais como uréia, ácido úrico e amônia? Porque reintroduzí-los no organismo? Seriam passíveis de reaproveitamento? Essas linhas que se seguem pretendem nos introduzir nessas questões. Ao contrário do que se supunha há alguns anos, hoje, sabe-se que, com a ajuda da microflora intestinal, podemos reciclar esse nitrogênio.

REAPROVEITAMENTO DO NITROGÊNIO INORGÂNICO DA URINA

O Ciclo do Nitrogênio Não-Protéico no Intestino

Durante o processo de digestão das proteínas da dieta, o movimento do nitrogênio é dos intestinos para dentro do organismo. Mas há também um movimento simultâneo de substâncias nitrogenadas para dentro da luz intestinal. Estas provêm de variadas fontes: saliva, suco pancreático, bile, restos celulares, secreção de uréia transluminal, leite materno ou, na presente questão, da urina ingerida.

A maior parte do nitrogênio não protéico secretado dentro do trato digestivo é digerido e reabsorvido, e apenas uma pequena parte deste nitrogênio é perdido nas fezes. Entretanto, muito do que é reciclado o é numa forma diversa da qual entrou, graças a ação da microbiota intestinal, que possuindo enzimas que seus hospedeiros não possuem, transformam esses substratos nitrogenados não protéicos em formas assimiláveis por nós.

Através da utilização da amônia - produto da quebra da uréia pelas ureases bacterianas - esse N antes não disponível passa então a ser utilizado para síntese protéica endógena ou síntese de proteínas microbianas, fornecendo assim aminoácidos essenciais produzidos pela própria flora intestinal.

Introdução

Os organismos vivos diferem consideravelmente na sua habilidade em sintetizar os 20 diferentes aminoácidos. Eles também diferem a respeito das formas de nitrogênio utilizadas como precursores dos aminoácidos. Os seres humanos, por exemplo, podem sintetizar apenas 10 dos 20 aminoácidos fundamentais para a biossíntese das proteínas. Os microorganismos diferem amplamente na sua capacidade de sintetizar aminoácidos. As enterobacteriaceae, na sua maioria, excetuando os Lactobacillus, são capazes de sintetizar todos os 20 aminoácidos necessários para a síntese das proteínas a partir de precursores simples1. A uréia, por exemplo, pequena molécula com 2 átomos de nitrogênio, que é o nosso produto de excreção principal, não pode ser por nós reutilizada diretamente, pois nos falta a enzima urease que a quebra em duas moléculas de amônia, esta sim para nós utilíssima. Os 10 aminoácidos que são chamados de aminoácidos não-essenciais ou dispensáveis, são sintetizados por nós a partir da amônia e de várias fontes de carbono. Os outros 10 que são chamados de aminoácidos essenciais ou indispensáveis podem ser obtidos a partir da dieta ou, como se sabe agora, podem também ser obtidos por nós a partir da síntese microbiana de aminoácidos que, nos nossos intestinos, sintetizam todos os 20 aminoácidos.

Uréia e amônia: reciclando o nitrogênio

A uréia é o componente final do catabolismo nitrogenado dos mamíferos e a substância nitrogenada não-protéica de maior concentração nas secreções digestivas,2 leite materno3 e urina4. Não pode ser metabolizada pelos macroorganismos a não ser através dos processos metabólicos dos microorganismos que contêm urease,5 que hidroliza a uréia liberando amônia, de acordo com a reação: CO(NH2)2 + H2O ® 2NH3 + CO2.

A amônia (NH3) liberada pela urease bacteriana,6 captada pela veia porta, fornece então o N para a síntese endógena de aminoácidos dispensáveis (ou não-essenciais), principalmente via síntese hepática de glutamina e glutamato.7

Produção endógena de aminoácidos com N reciclado da amônia

Sabe-se, há muito que, em pessoas com ingestão protéica adequada, ≈ 60-70% da uréia produzida pelo metabolismo corporal é excretada na urina, ao passo que o restante, secretado no trato gastrointestinal, sofre reciclagem através de degradação pela urease microbiana intestinal8,9. Esta ação da urease permite que 20-50% do nitrogênio da uréia hidrolizada em amônia seja reciclado e retorne ao organismo sob a forma de aminoácidos, enquanto 50-80% retorna como uréia via ureiagênese.10,11. A proporção de nitrogênio não-protéico reciclado é inversamente proporcional ao consumo de nitrogênio protéico, ou seja, quanto menos proteína na dieta, tanto mais eficiente é o processo de reciclagem do nitrogênio não-protéico12,13. Mas, somente se atinge o equilíbrio do balanço nitrogenado ou ele se torna positivo quando o N não-protéico é oferecido em quantidade suficientemente alta14.

Em estudos com leite materno, o qual contém 20-25% de N não-protéico, dentre uréia, ácido úrico e creatinina, observou-se uma taxa de retenção de até 60% para o 15N da uréia.3,15
Em adultos, estudos demonstram um aproveitamento fisiológico da uréia total por volta de 25-40%, dependendo, dentre outros fatores, do perfil dietético, presença de doença concomitante, fase de crescimento e adaptação microbiológica2,8,9,10,16,17.
Dessa porcentagem, encontrou-se um reaproveitamento do N de até mais de 80% na síntese de novos aminoácidos 14. São evidenciados não somente um aumento da glutamina, como também, em ordem decrescente, de: arginina, alanina, glicina serina e outros18.
Ainda nesse sentido, os rins são órgãos que muito contribuem para essa reciclagem, adicionando amônia ao organismo. Apenas 30% da produção renal de amônia é liberada na urina, sendo os restantes 70% liberados na veia renal19.
Produção de aminoácidos indispensáveis pela microbiota intestinal
A uréia é normalmente secretada no trato digestivo pela saliva, pela bile e suco gástrico, mas também difunde-se livremente da circulação para dentro do estômago e intestinos (secreção transluminal), sendo o cólon, embora menos que o delgado, também permeável a ela.13,20,21 Mas a maior parte da uréia é proveniente da bile e suco pancreático. A secreção transluminal também parece ser maior no jejuno que no íleo, restando pouca uréia ao se entrar no ceco2. Dados demonstram, por exemplo, que apenas 8% da uréia plasmática foram provenientes do N da amônia fecal (cólon), sendo a grande parte do intestino delgado.22
É classicamente aceito que a maior parte da população microbiana é encontrada no intestino grosso e que o maior local de absorção dos aminoácidos é o intestino delgado. Isso é verdade, mas o intestino delgado não é o único local de absorção de aminoácidos nem a atividade microbiana está confinada ao intestino grosso23. Por isso supunha-se que as proteínas microbianas não seriam capazes de, tal como nos ruminantes, exercer algum papel funcional nos não-ruminantes.
Alguma absorção de aminoácidos ocorre no intestino grosso,19 mas parece mais provável de estar ocorrendo mesmo no intestino delgado24 conquanto muita atividade micro-biológica ocorre aí,21 pela grande quantidade de uréia secretada no início do intestino delgado, chegando a se encontrar para o íleo uma taxa de metabolismo de 38% da uréia total3.

Estudos em animais19,24,25 e em humanos 8,17,18, 26, 27,28,29 têm demonstrado o aparecimento de nitrogênio marcado em aminoácidos indispensáveis tais como: arginina, valina, leucina, fenilalanina, lisina, histidina e treonina. Por exemplo, apesar da produção de treonina ser uma das mais baixas de todos os aminoácidos marcados com 15N, mesmo com as estimativas das necessidades mínimas estarem em questionamento,30 ela mostrou-se ser de 3 a 7 vezes maior do que o requerimento padrão internacional para humanos adultos aceito hoje.31
Uréia ® (microflora) ® amônia ® (macroorganismo) ®
® aa. dispensáveis ® (microflora) ® aa. indispensáveis

Também parece que microflora não se utiliza somente do N amoniacal proveniente da quebra da uréia, mas preferencialmente após ter sido reciclado através da síntese de aminoácidos dispensáveis, principalmente no fígado, e retornados ao intestino delgado em secreções endógenas ricas em proteínas, para então ser reutilizado pela microflora2, 32 na síntese dos aminoácidos indispensáveis, que serão por fim absorvidos e utilizados na síntese protéica. Desta forma os microorganismos encontrariam os esqueletos aminoácidos já melhor definidos.

Subestimativa do reaproveitamento

Sabe-se que ainda que as evidências estejam se acumulando a favor dessa reciclagem sabemos que essas estimativas sofrem grandes distorções, provavelmente para menos. As medidas são realizadas em aminoácidos marcados com 15N no plasma, por sua fácil acessibilidade, sendo desprezados os aminoácidos intracelulares e intersticiais. As vias metabólicas pelas quais os aminoácidos são formados são intracelulares, sendo portanto, a concentração destes (particularmente glutamina e alanina, que são os maiores produtos da incorporação nitrogenada) maior dentro das células do que no plasma33.
Adiciona-se a essa grave distorção outra, não menos importante. Os novos aminoácidos sintetizados, marcados com 15N, podem estar sendo incorporados a proteínas ao invés de permanecerem no plasma, fugindo da busca da incorporação nitrogenada29.
Conclusão

Esses dados demonstram que essa capacidade de reciclagem tão bem estudada nos ruminantes existe também nos humanos, e que tem se mostrado ser fisiológica e quem sabe até mesmo necessária, haja visto que a uréia representa ≈15% do nitrogênio já no leite materno.
Devido ao fato de ser a uréia a principal forma final de catabolismo do N, esse processo de recuperação e reciclagem do Nuréico deverá ter um impacto considerável não só no balanço nitrogenado de todo o organismo, mas também nas funções metabólicas específicas que esses aminoácidos desempenham no corpo.
Belo Horizonte, 28 de abril de 2001.

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